30/05/2026

FESTA DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ DE VITÓRIA DO MEARIM ENFIM, POR LEI ESTADUAL, PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO MARANHÃO

Artigo em que também se destaca o momento sugestivo para esse reconhecimento por lei: 

há 360 anos, o início da evangelização na Ribeira do Mearim 

(a mais antiga notícia da presença da Igreja Católica na região); e

há 235 anos, o mais antigo festejo de Nossa Senhora de Nazaré de que se tem notícia                                                                     (Washington Luiz Maciel Cantanhêde)

OS 360 ANOS DA IGREJA CATÓLICA NA RIBEIRA DO MEARIM

As atividades da Igreja Católica na Ribeira do Mearim, em domínios da América conhecidos como Maranhão, começaram paralelamente com a instalação de colonos portugueses na região, desde meados do século 17. Sacerdotes incursionavam pela região – alguns até o fizeram como missionários, e é certo que vários o fizeram agregados às campanhas militares contra os nativos resistentes à penetração portuguesa –, mas o fato é que não havia na Ribeira do Mearim, principalmente por efeito dessa legítima e natural resistência indígena, a presença contínua da Igreja sob a forma mais comum de sua atuação celular: uma paróquia e seu vigário.  

De forma isolada, a cruz vinha, principalmente, em mãos dos religiosos que assistiam os fiéis dos engenhos e arredores, sendo certo, pelo conteúdo dos documentos históricos hoje disponíveis, que, naquela quadra, existiam pelo menos quatro deles de grande ou médio portes na região, todos, seguramente, com suas respectivas capelas: os de João Pereira de Cáceres (depois dirigido por seus genros Manoel e Tomás Beckman), Vital Maciel Parente, Bento Maciel Aranha e Lourenço da Costa. 

Dessa época, o relato mais antigo que se conhece de atividade religiosa no Mearim é exatamente de uma incursão isolada, a do padre jesuíta João Filipe de Bettendorff, superior da Companhia de Jesus no Maranhão, quando ia visitar um curral de gado daquela ordem instalado algures, à margem do Mearim. Foi ele mesmo quem fez o registro em seu livro “Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”, escrito no final dos anos 1600.

Os jesuítas haviam obtido terras na região em 1663. Nelas buscavam meios de subsistência para o chamado Colégio do Maranhão através da atividade pastoril, depois deslocada integralmente para a região do Rio Pindaré.

A viagem de Bettendorff aconteceu entre maio e junho de 1666. Ele, antes de ir ao curral dos jesuítas, estacionou no engenho de Lourenço da Costa, o primeiro lugar propício para uma povoação naquela época, subindo pelo Mearim depois que este recebe as águas do Pindaré. Ali, celebrou missas, ministrou batismos, realizou confissões e catequese por ocasião das festas do Espírito Santo (Pentecostes), dando grande alegria a Catarina de Melo, a mulher do senhor de engenho, que outra não era – sabe-se por meio de um documento histórico espanhol – senão a avó de Lázaro de Melo, personagem nefando da História do Maranhão.

Descobre-se que o dia exato da festa de Pentecostes no ano de 1666, com o auxílio dos buscadores da internet, foi o dia 28 de maio. Portanto, como estamos no final de maio de 2026, a incursão de Padre Bettendorff ocorreu há exatos 360 anos. Esse é o marco documentalmente comprovado da primeira ação católica na região do Mearim desde o início de sua colonização. Dir-se-ia que, no dia da festa que lembra a fundação da própria Igreja, estava sendo fundada a sua atuação na Ribeira do Mearim. 

Quase 60 anos depois daquela ação inaugural de Bettendorff, Dom Frei José Delgarte, um dos primeiros bispos do Maranhão, pediu ao rei D. João V a admissão ao Padroado Real de uma igreja construída por José da Cunha d’Eça na Ribeira do Mearim, onde já estaria este servindo de pároco.

Verifica-se hoje, pelo confronto do documento espanhol já citado com documentos do Arquivo Histórico Ultramarino e da Biblioteca de Évora, ambos portugueses, uma grata surpresa: a igreja era no local em que tinha existido o antigo engenho de Lourenço da Costa e Catarina de Melo, então já pertencente a Cunha d’Eça, lugar que aquela documentação também mostra que passou a ser chamado de Sítio.

O que veio na sequência, com a solitária e simples decisão do rei D. João V, no alto do documento com o parecer favorável do Conselho Ultramarino ao pedido do Bispo (“Como parece. Lisboa Ocidental, 18 de março de 1723”), selava o destino dos colonos de Portugal na Ribeira do Mearim: havia na região uma paróquia e um pároco. Antes dessa paróquia, com o orago de Nossa Senhora de Nazaré, existiam no Maranhão apenas as de Nossa Senhora da Vitória da Sé Catedral (São Luís), do Apóstolo São Matias de Tapuitapera (Alcântara), de Nossa Senhora da Conceição da Vila de Santa Maria do Icatu (Icatu) e de Nossa Senhora do Rosário do Rio Itapecuru (Rosário). (1)

A FESTA DE NOSSA SENHORA DE NAZARÉ DE VITÓRIA DO MEARIM, ANO 235

Sessenta e um anos depois da Resolução Régia de 18 de março de 1723, mais precisamente em meados de novembro de 1784, dar-se-ia, oficialmente, a transferência da igreja matriz da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré para um novo lugar, colina imune às enchentes da região, desde antes conhecido como Vitória, onde até hoje está. Havia, realmente, a necessidade de um novo templo, pois se achava totalmente arruinado o que existia no Sítio, carente de ornamentos decentes e prestes a afundar, porque a pororoca e as enchentes do rio, pelo tempo do inverno, vinham cabalmente diminuindo a faixa de solo em que fora erguida a construção.

Por ter passado a ser a sede da Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré – que, portanto, já estava a salvo das enchentes que inviabilizaram a sua permanência na parte mais baixa do Rio –, a paragem Vitória, na Ribeira do Mearim, experimentando franco crescimento (afinal, sua manutenção e seu crescimento dependiam de igreja e pároco presentes, o imprescindível socorro espiritual para os seus moradores), transformou-se em Arraial da Vitória, e o julgado de que era a capital desde que fora criado este, em 1747, finalmente, seria elevado a vila (sede de município) algumas décadas depois (1833). (2)

No Município de Vitória do Mearim, a Festa de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da paróquia local, está presente, por assim dizer, no calendário religioso, cívico e cultural do seu povo.

Com efeito, o referido festejo não somente é a maior manifestação religiosa local, mas também a maior expressão cultural vitoriense, o que vem ocorrendo ao longo de séculos.

Documento do acervo da Arquidiocese de São Luís do Maranhão, sob a guarda do Arquivo Público do Estado, mostra que antes mesmo de 1793, de quando data o Círio de Nazaré até hoje realizado em Belém do Pará, já se realizava na Paróquia do Mearim uma festa também em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira local. Trata-se de uma demanda do pároco local, padre Felipe Néri de Faria, datada de 1791, contra um particular, cobrando-lhe pagamentos relativos à referida festa.

Na sequência dos anos, o mesmo acervo dá conta da realização da festa, sob a coordenação de fiéis organizados, no ano de 1810; e, já sob os auspícios do pároco local, na década de 1830, a partir de quando, pelo que registra a memória oral, passou a ser realizada ininterruptamente.

Em Belém, tudo começou com uma grande feira de produtos regionais no largo em frente à ermida já levantada, com missas e novenas e, para pagar uma promessa, uma procissão, à frente da qual o governador do Pará levava um grande círio. Surgia, assim, a festa que ali se realiza anualmente no mês de outubro.

Embora com algumas diferenças, são esses os traços característicos da festa que também na Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré de Vitória do Mearim se realiza secularmente. As principais diferenças dizem respeito à época do festejo, aqui realizado nos primeiros dias de setembro, e ao uso da corda, puxada pelas pessoas como forma de penitência ou pagamento de graças alcançadas, na procissão do Círio de Belém, e inexistente na tradição vitoriense.

É verdade que “a festa”, como a ela se referem os vitorienses, sofreu grandes alterações quanto à sua forma, determinadas por fatores socioeconômicos ao longo de sua história, mas continua a acontecer anualmente, no início do mês de setembro, que representa a época de maior importância nos planos religioso e cultural deste povo.

O acontecimento é uma verdadeira referência de tempo para os vitorienses, principalmente aqueles que resistem como legítimos guardiães das suas mais caras tradições. Basta que se rememore que, iniciando-se o mês de agosto, medidas de embelezamento das residências e dos logradouros públicos são tomadas, começam os preparativos individuais para não fazer má figura na festa (indumentária nova, dinheiro no bolso, etc.) e compromissos mais sérios são adiados.

A visão do vitoriense passa a ser de curto prazo, tudo girando em torno da festa: ou se faz algo necessário porque “a festa está na porta” ou se deixa para fazer algo muito importante “só depois da festa”, pois o tempo e as energias hão de ser despendidos na expectativa, nos preparativos e na própria vivência da festa (como ocorre com os profissionais cujos serviços são requisitados e que, já não podendo atender a todos, são taxativos: “agora, não; só depois da festa”; “não é possível, deixa passar a festa”).

Nesses dias de festa, realizam-se as novenas e é grande o afluxo de pessoas das cidades vizinhas e até de lugares distantes, geralmente, neste caso, saudosos filhos da terra que a ela retornam no seu momento anual mais precioso.

As novenas (nove dias de celebrações antecedendo o dia 8 de setembro) contemplam, desde há muito, categorias sociais, comunidades ou grupos específicos a cada dia.

No dia 7, penúltimo da festa, as comemorações pelo Dia da Pátria adquirem um brilho especial, posto que influenciadas pelo clima de alegria que já domina os moradores e visitantes da cidade. O ponto alto desse dia é a realização, pela manhã, do desfile estudantil, que em outras cidades se faz no dia 5, denominado Dia da Raça. À tarde, uma partida de futebol entre a seleção local e a de outro município ou um time de São Luís-MA confere maior brilho à data.

No dia 8, “dia da festa” propriamente dita (dia milenarmente consagrado pelos cristãos à celebração da Natividade de Maria), a missa matinal é realizada às nove horas e a procissão, que sai da frente da igreja matriz e percorre importantes artérias da cidade para retornar ao ponto de origem, é iniciada ao final da tarde ou início da noite, levando o andor (agora, berlinda) de Nossa Senhora de Nazaré, esmeradamente enfeitado. Durante o percurso, reza-se e cantam-se os tradicionais hinos para procissão.

Antes da procissão (mas, nos dois últimos anos, depois desta) é o momento solene da missa principal, antigamente celebrada no interior da igreja matriz; hoje, em função da falta de espaço no templo para a enorme multidão, é missa campal celebrada na praça contígua, sendo inicialmente conduzido para a frente do altar, sob calorosos aplausos, o andor (agora, berlinda) de Nossa Senhora.

Finda a festa, restará a lembrança dos bons momentos recentemente vividos e a expectativa da festa do ano vindouro – se será igual ou melhor. E certamente ainda estará ecoando nas mentes dos mais devotos os hinos tradicionais, a exemplo do Hino a Nossa Senhora de Nazaré, oriundo do Círio de Nazaré, de Belém do Pará.

A Festa de Nossa Senhora de Nazaré é um momento especialíssimo na vida da comunidade vitoriense, ano após ano. Sobretudo nos dias 7 e 8, percebe-se o clima de comunhão de sentimentos que invade os corações dos filhos de Vitória do Mearim, sejam os nela residentes, sejam aqueles apenas visitantes, porque, para quem se identifique como vitoriense, legítimo ou por adoção, esse é o momento de rememoração do próprio advento da comunidade que, sob as bênçãos da Virgem de Nazaré, surgiu no baixo curso do Rio Mearim como matriz do povoamento de toda a região.

É também um momento de regeneração, pois enseja a unidade dos vitorienses, que sentem um acréscimo de suas forças na repetição dos rituais legados pelos ancestrais, os quais precisam ser preservados, em virtude do seu extraordinário poder de revitalização das energias morais, o que contribui para o saudável enfrentamento das dificuldades da vida. (3)

NOSSA FESTA, PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO MARANHÃO

A Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré atingiu a marca de 300 anos de existência no ano de 2023, efeméride intensamente comemorada, no plano religioso, pelos católicos vitorienses; e no plano cívico-cultural, efetivamente, pela Academia Vitoriense (Instituto de Literatura, História e Geografia, Artes e Ciências).

Nem por isso algum dos parlamentares eleitos em 2022 e que receberam votação expressiva em nossa terra (vários deles tendo passado pela cidade em momentos festivos do Tricentenário e então sendo “festejados”) se lembrou de propor, no exercício do seu atual mandato, o que muitos dos seus pares já vinham fazendo em prol de outros lugares do Maranhão: um projeto de lei para fazer reconhecida a Festa de Nossa Senhora de Nazaré de Vitória do Mearim, devoção tricentenária, como patrimônio cultural imaterial do povo do Maranhão.

Para que se tenha uma ideia, vários já são os lugares maranhenses, alguns deles muito mais jovens que o nosso, que obtiveram esse reconhecimento, por lei estadual, para as suas festas católicas, umas com existência bem recente.

Reconhecendo patente a necessidade de valorizar e reforçar a maior manifestação religiosa local, que também é a maior expressão cultural vitoriense, compreendi que urgia se propusesse a quem de direito a adoção de medidas nesse sentido. Assim, coloquei-me à frente de um grupo de vitorienses com residência em São Luís e, ajudado por meu primo João Nazaré Cantanhede Costa, radicado na distante Caxias-MA, procuramos, no início de dezembro do ano passado, um parlamentar amigo dele, cuja base política é também ali, o deputado estadual Catulé Júnior, e lhe fizemos a sugestão de apresentação de um projeto de lei oficializando tal reconhecimento. (4)

O deputado escolhido – que, solicitamente, abraçou a ideia – é alguém distante das disputas políticas vitorienses, além de detentor de elevado nível cultural, grande sensibilidade social e bom conceito político, como vem sendo avaliado.

Resultado: o projeto, no dia 15 de abril, restou completamente aprovado no âmbito da Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão e, após uma estranha demora na sua remessa para a Governadoria do Estado, foi, finalmente, sancionado e promulgado pelo governador Carlos Brandão no último dia 25. 

Agora está na Lei nº 12.855, de 25 de maio de 2026: a Festa de Nossa Senhora de Nazaré, realizada anualmente pela paróquia de mesma invocação, na cidade de Vitória do Mearim, é reconhecida e declarada como Patrimônio Cultural Imaterial do Maranhão! (art. 1º)

E mais: o dia 8 de setembro, Dia da Padroeira de Vitória do Mearim, ápice da Festa de Nossa Senhora de Nazaré, fica incluído no Calendário de Eventos do Estado do Maranhão (art. 2º), cujo Poder Público poderá adotar medidas para proteção, valorização e preservação do festejo (art. 3º).

A conclusão do processo legislativo (publicação no Diário Oficial do Estado do Maranhão de 25.06.2026) não poderia vir em hora mais apropriada. A estranha demora de 30 dias para que o projeto de lei, aprovado, saísse da Assembleia Legislativa rumo ao Governo do Estado acabou por permitir que ele fosse transformado efetivamente em lei no dia seguinte ao Dia de Pentecostes de 2026, aniversário, oficialmente, de 360 anos da evangelização na Ribeira do Mearim; e no dia exato do aniversário de dois anos do paroquiato do padre Rozivaldo Freitas Moraes em Vitória do Mearim – sacerdote que tem demonstrado exultação com essa conquista, que tende a ser valorizada na Festa de Nossa Senhora de Nazaré de 2026.

No próximo dia 7 de junho, durante e após a Santa Missa, no Centro Litúrgico Padre Sergio Ielmetti, na sede da Paróquia, sob a presidência de Padre Rozivaldo, renderemos graças a Deus e comemoraremos esse reconhecimento, em conjunto com o deputado Catulé Júnior, os paroquianos e os munícipes, enfim, da antiga terra de Nossa Senhora de Nazaré da Ribeira do Mearim.

(1) O texto desta seção foi adaptado dos dois textos inaugurais do livro “Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré de Vitória do Mearim: Crônicas do Tricentenário”, de 2023, também do autor deste artigo.

(2) Os dois parágrafos acima foram extraídos, com adaptação, do capítulo “A nova igreja matriz na paragem Vitória”, do livro “1784 e outros momentos marcantes da história de Vitória do Mearim”, de 2024, também do autor deste artigo.

(3) O texto desta seção, excluídos os dois primeiros parágrafos, reproduz quase que integralmente a memória sobre a Festa escrita pelo autor deste artigo, apresentada ao deputado Catulé Júnior em 9 de dezembro de 2025, da qual serviu-se ele para a justificativa do projeto de lei que apresentou. 

(4) Compareceram comigo ao gabinete do deputado Catulé Júnior e assinaram a proposição que se lhe fez, em 09.12.2025: João Nazaré (Cantanhede) Costa, Maria dos Reis Rocha Mendonça, Sandra Regina Rodrigues dos Santos, José Alberto Sampaio Ferreira, José Maria Rodrigues Júnior, Zuíla Fernandes Souza, Raimundo José da Silva Filho, Maria do Espírito Santo Fernandes Neves, Hilbert Rocha Mendonça, Raimundo Arnaldo Correa e Carlos Augusto Teixeira Carvalho.   

As fotos que ilustram este artigo mostram momentos dos dois últimos dias da Festa de Nossa Senhora de Nazaré do ano de 2025. São de autoria dos vitorienses Gealisson Nunes e Alberto Souza.




0 comentários :

Postar um comentário