Por: Washington Luiz Maciel Cantanhêde
Permita-me que lhe conte um pouco dessa história de 300 anos atrás, pedaço de uma crônica esquecida pela sucessão das gerações e que, felizmente, a decifração de velhos documentos, hoje disponíveis para pesquisa, possibilita que seja resgatada.
Era o ano de 1726.
Em uma área do Rio Mearim situada entre as atuais cidades de Vitória do Mearim e Arari, habitava há cerca de dez anos o português Vitoriano Pinheiro de Meireles.
Morador de Belém do Pará, onde era militar e tinha posses, e casado com uma neta do falecido Vital Maciel Parente, que tinha sido capitão-mor do Maranhão e dono de engenhos no Itapecuru e no Mearim, ele fora seduzido pelo governador Cristóvão da Costa Freire (1707-1718) a mudar-se para a ribeira do último com toda a sua família. Na região, levantou dois engenhos reais de fabricação de açúcar, também núcleos de resistência aos ataques indígenas que tinham inviabilizado, até aquele momento, a efetiva colonização da região. Um desses engenhos, o mais importante, foi erigido sobre os escombros do que outrora pertencera a Vital Maciel Parente.
Na verdade, do início da ocupação do Maranhão até então, as margens do Mearim estavam ocupadas por moradores afastados uns dos outros, exceto no lugar chamado Sítio, sede da Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré, criada em 1723, onde se concentravam alguns, e ocupadas somente ao longo de poucas léguas após a sua foz, totalizando menos de cem portugueses.
A presença marcante de Vitoriano de Meireles, com família, muitos agregados, empregados e escravos seria, portanto, fator decisivo para a mais larga ocupação portuguesa da Ribeira do Mearim. Sua luta, porém, não vinha sendo nada fácil até aquele ano de 1726, a começar pela omissão da Coroa na concessão dos incentivos e benefícios que, de praxe, em situações como aquela, Sua Majestade costumava fazer, os quais lhe tinham sido prometidos.
Vinham sendo intensas, na década de 1720, as incursões portuguesas para neutralizar a ofensiva de várias nações indígenas do Maranhão, a exemplo dos ferocíssimos Barbados, que então habitavam uma região entre o Itapecuru e o Mearim, donde partiam para o ataque aos estabelecimentos coloniais portugueses das margens deste rio. Nos engenhos de Vitoriano, exatamente por isso, para defender-se, todos viviam de armas nas mãos.
O padre italiano Gabriel Malagrida, da Companhia de Jesus, sacerdote que servia à Coroa Portuguesa, abraçara, com todo o risco inerente a isso, a missão de catequizar os Barbados no final de 1725. Para chegar até eles, o jesuíta saiu da Aldeia de Maracu (hoje, cidade de Viana), desceu o Pindaré até a confluência com o Mearim, e por este subiu até o engenho de Vitoriano, parada necessária para descanso apropriado, eventual obtenção de reforço humano (um guia ou um “língua”, por exemplo) e indispensável coleta de orientações e víveres.
Muito sofreu Padre Malagrida naquela missão, haja vista a rebeldia constante dos indígenas, que, apesar de presenteados materialmente e assistidos espiritualmente pelo missionário, o tratavam com ferocidade, negando-lhe alimento, subtraindo-lhe os pertences e até tentando contra a sua vida.
Ao fim da malograda tentativa de catequese, a fuga improvisada do jesuíta, diante da morte que lhe era anunciada, levou-o, com dois jovens nativos que lhe eram fiéis e um português, que o acompanhavam, a vagar errante pelas matas, até chegar à margem do Mearim, que já não esperavam encontrar, de onde partiram em duas toscas jangadas fabricadas pelos indígenas, descendo o rio ao sabor das correntezas, espreitados e ameaçados pelos Barbados, e escapando da morte por afogamento, até chegarem aos estabelecimentos portugueses.
Mas essa foi a última grande hostilidade feita pelos Barbados aos portugueses. Logo, uma tropa seria organizada pelos lusos para dar-lhes guerra, sob o comando do capitão Francisco de Almeida, com a participação de indígenas da Serra da Ibiapaba, Tupinambás, Guajajaras, Palajases e de outras nações. Após alguns combates, conseguiram vencer definitivamente os Barbados.
Nos dias 30 de março e 27 de abril daquele ano de 1726, em São Luís, capital do Maranhão, no palácio do governador e capitão-general do Estado, João da Maia da Gama, reúnem-se com este várias autoridades eclesiásticas (jesuítas, franciscanos, carmelitas e mercedários), civis e militares, além de indígenas principais da Aldeia Grande e da Aldeia Pequena dos Barbados, bem como dos seus aliados das aldeias dos Guanarés e dos Aroazes.
Constou em documento que tinham estes comparecido para pedir que se lhes “admitisse a pazes”, amedrontados, depois de vencidos na guerra, comprometendo-se a vir, com os seus, para o arraial dos portugueses levantado no Rio Mearim (para “servir a Sua Majestade, que Deus guarde, com os seus parentes que eram já vassalos do dito Senhor” junto ao Arraial de São José do Mearim, e debaixo das armas dele).
Celebrada solenemente a paz, de tudo foram lavrados os competentes termos de pazes pelo escrivão comissário da Ouvidoria Geral. Assinaram-no, além do governador e capitão-general, as outras autoridades e, pelos líderes indígenas e intérpretes, que não sabiam ler nem escrever, o escrivão da Câmara. Estiveram presentes, representando as nações até então hostis: no dia 27, Parapupaya ou Curu - principal da Aldeia Grande dos Barbados, Anguty ou Anuty – principal dos Aroazes, e Curiju – principal da aldeia dos Guanarés; e no dia 30, Murucu – maioral dos Guanarés, e Cabatuna – um dos principais da Aldeia Pequena dos Barbados, representando o maioral Vacudé.
São Luís do Maranhão comemorou festivamente aquela conquista.
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Ante a solicitação dos próprios indígenas derrotados, partiu Gabriel Malagrida para nova missão entre os Barbados. A desconfiança recíproca, contudo, ainda era grande e nada garantia o seu sucesso, sequer a volta dos que se aventurassem nela.
Ainda assim, Vitoriano Pinheiro de Meireles enviou para a missão, como acólito de Malagrida, seu filho de 11 anos de idade, chamado José, ciente de que, na prática, a criança ficaria em poder dos Barbados na condição de refém. Era uma prova de sua boa vontade, do seu desejo de estabelecer paz duradoura com os nativos.
A esse tão corajoso quanto diplomático gesto do senhor de engenho associou-se a ardente caridade do jesuíta, vivendo em pobreza entre os Barbados, pregando e lhes dando assistência. O resultado não tardou: enviaram os chefes indígenas seus filhos para o engenho de Vitoriano, igualmente na condição de virtuais reféns.
Mas como o português os tratasse tais quais filhos, em pouco tempo, no seu engenho, encontravam-se os próprios chefes e suas famílias, hospedados com fidalguia por aquele homem de larga visão. É tocante o relato que desse episódio memorável da história da colonização do Mearim, e da própria história do Maranhão, fizeram os padres jesuítas que dele tomaram parte, inclusive Malagrida.
Iniciava-se a paz duradoura no baixo curso do Mearim.
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Poucas décadas depois, já haviam, Rio Mearim acima, surgido pequeninos povoados nas paragens de além do engenho de Vitoriano Pinheiro de Meireles, que depois passaria a ser chamado de Engenho Grande, nome pelo qual ainda hoje é denominado o povoado que surgiu no lugar. Um daqueles lugarzinhos era o Arraial de São José.
Outro lugarzinho, na vizinhança, crescia bastante após a paz com os Barbados. Viria a ser o maior de todos. Estava localizado em um sítio relativamente alto daquela região ribeirinha de margens a pique e, exatamente por isso, estava vocacionado a ser o principal da região da Ribeira do Mearim.
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O padre Gabriel Malagrida, um dos mais completos missionários jesuítas do período colonial, crítico, a seu modo, dos costumes portugueses, foi perseguido pelo Marquês de Pombal, espécie de primeiro-ministro do Reino de Portugal na época. Acusado de heresia, em razão do conteúdo de obras escritas no cárcere, Pombal acionou o Tribunal da Inquisição de Portugal para condená-lo. Obtida a condenação, com grilhões nos pulsos e freio na boca, Malagrida foi estrangulado e queimado, da noite do dia 20 à madrugada do dia 21 de setembro de 1761.
Vitoriano Pinheiro de Meireles, o grande senhor de engenho da Ribeira do Mearim, estava, até agora, esquecido na história do Mearim.
O menino José, seu filho – na idade adulta, conhecido como José Pinheiro de Meireles Maciel Parente (adotou o sobrenome materno como o principal), capitão-mor da Ribeira do Mearim e um dos primeiros juízes ordinários do Julgado do Mearim –, com largo trânsito entre os índios da região, teve, pelo menos, um filho com uma indígena, Antônio Felipe de Meireles, que, rico no final da vida, radicou-se em São Luís, onde deixou descendência.
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O lugarzinho da vizinhança do Arraial de São José, a paragem Vitória, logo seria conhecido como Arraial da Vitória, passaria a ser a sede da Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré (pois o lugar Sítio se revelara impróprio para essa finalidade), a sede de um julgado (criado em 1747) e também a sede do primeiro município do Mearim (criado em 1833), tornando-se, com o avançar da procissão dos séculos, a cidade de Vitória do Mearim, assim denominada oficialmente cerca de duzentos anos depois, em 1948.
Quando o lugar ainda era Arraial da Vitória e a construção da nova igreja matriz da Freguesia nele estava ocorrendo (seria inaugurada em novembro de 1784), foi no interior desta que se deu, em meados de maio de 1781, o sepultamento de alguém que sempre morou na Ribeira do Mearim e, em seus últimos dias, morava naquele arraial.
Merecidamente, foi um dos primeiros cujos restos mortais passaram a repousar no templo.
Chamava-se José Pinheiro de Meireles Maciel Parente.