01/05/2026

DISCURSO DE POSSE, EM 25 DE ABRIL DE 2026, DO POETA E MÚSICO AMADOR VITORIENSE FRANCISCO MORENO DUTRA NA CADEIRA 2 DO QUADRO DE MEMBROS EFETIVOS DA ACADEMIA VITORIENSE

(Patrono: Manoel Beckman)

Senhor Presidente da Academia Vitoriense,

Senhoras confreiras e senhores confrades,

Autoridades aqui presentes,

Meus queridos familiares, amigos de toda a vida e diletos concidadãos de Vitória do Mearim.


Boa noite!


O que chamamos de acaso, na maioria das vezes, é apenas o roteiro sutil, meticulosamente escrito pelas mãos do destino. Há momentos na nossa existência em que o tempo parece suspender o seu voo. Ele nos obriga a parar, a olhar para trás, a contemplar a longa estrada percorrida e a compreender que cada passo, cada alegria, cada tropeço e cada lágrima nos preparavam, de forma invisível, exatamente para o porvir. Transpor os umbrais desta egrégia Academia Vitoriense é, para mim, o cume de uma jornada que teve seu início não no silêncio das grandes bibliotecas ou nos salões de mármore, mas no calor humano, vibrante e verdadeiro das ruas da nossa amada terra.

Agradeço, com o coração transbordando de humildade e de um júbilo indescritível, a imensa generosidade de cada um dos ilustres pares que sufragaram o meu nome. Vocês me permitiram a honra ímpar de ocupar uma cadeira neste cenáculo de sabedoria, dedicado à preservação da nossa identidade. A assunção a esta Casa não representa, em absoluto, o troféu de uma vaidade pessoal. Pelo contrário. Eu a recebo como a aceitação de um sacerdócio cívico e literário, um compromisso irrevogável com a memória, com a força da palavra e, acima de tudo, com o povo aguerrido da nossa Baixada Maranhense.

O grande filósofo espanhol Ortega y Gasset imortalizou a máxima de que "eu sou eu e minhas circunstâncias". Pois bem, minhas senhoras e meus senhores, as minhas circunstâncias têm nome, têm cheiro, têm cor, têm som e têm endereço: elas se chamam Vitória do Mearim.

Foi neste abençoado chão que eu nasci, no dia 07 de junho de 1980, no bairro Tapuitapera, na casinha ao lado da velha usina de arroz. Aqui, sob este céu equatorial, os meus olhos se abriram para os mistérios do mundo, e minha alma foi forjada, dia após dia, na argila úmida, misteriosa e fértil de nossas margens. Vivi nesta cidade, imerso em sua essência mais pura, até o ano de 1999. Naquele momento, o imperativo da vida, a necessidade do crescimento e a busca por novos horizontes profissionais e acadêmicos me forçaram a arrumar as malas e mudar para a capital, São Luís.

Foram dezenove anos ininterruptos vivendo o pulsar desta cidade. Ao rememorar esse período fundacional da minha existência, sinto a doce e inevitável melancolia de quem desfrutou de um tempo que, infelizmente, não volta mais. Um tempo em que a pressa não ditava os nossos dias, em que stories e curtidas não existiam, em que as portas das casas permaneciam abertas, e em que a confiança no vizinho era o maior patrimônio de uma família.

Cresci embalado pela correnteza majestosa do nosso imponente Rio Mearim. Quantas e quantas vezes, na efervescência da juventude, movido por aquela liberdade plena que só a infância no interior nos proporciona, não banhei e nadei naquelas águas turvas? O rio, com seu fluxo constante e sábio, ensinou-me a primeira grande lição de filosofia: a de que a vida é um eterno seguir adiante, contornando os obstáculos, mas sabendo que a nossa nascente nunca nos abandona. Foi nessas águas, correndo por entre as belezas e as lendas da nossa região, mergulhando sem medo de ser feliz, que eu construí uma bela história. Fui irremediavelmente moldado por esse ambiente, e nele criei laços profundos de amizade. Vínculos fraternos, inquebráveis, forjados na inocência, e que, com muito orgulho, mantenho vívidos e pulsantes até os dias de hoje.

Posso dizer que a minha primeira e mais rigorosa academia foi a própria cidade. Estudei em nossas escolas desde as primeiras letras até a conclusão do ensino médio. Mas as lições dos livros e cadernos inevitavelmente se misturavam às grandes lições da vida ao ar livre. Como apagar da memória os lugares icônicos que desenhavam a geografia da nossa alegria cotidiana? Lembro-me, com a vivacidade de quem ainda hoje sente o aroma doce no ar, das tardes inesquecíveis no Sítio do Felisberto. Aquele lugar era, para nós, um verdadeiro paraíso terreal. Era um oásis de verde onde as mangas pareciam ter uma doçura e uma suculência que, lhes garanto, não se encontra em nenhuma outra parte do mundo. Colher, descascar com os dentes e saborear aquelas mangas sob a sombra generosa do sítio do Felisberto era mais do que um lanche infantil; era um ritual de comunhão com a generosidade da nossa terra.

Contudo, a verdadeira formação do meu caráter, a têmpera da minha vontade, deu-se sobretudo no asfalto quente, na poeira e nas calçadas desta urbe. Frequentei e conheci cada canto, cada beco, cada praça de Vitória do Mearim. E foi justamente por essas ruas e pelas portas vibrantes de nossas escolas que iniciei minha jornada de trabalho, ainda menino, vendendo dindim e pastel.

O sol abrasador do Maranhão queimando sobre meus ombros enquanto eu oferecia o suco congelado nos saquinhos plásticos, ou o aroma inconfundível dos pastéis fritos chamando a clientela, ensinaram-me o valor sagrado do trabalho árduo. Ensinaram-me a honestidade que não se negocia. Ali, aprendi a ler a alma humana com uma clareza, uma empatia e uma profundidade que nenhum tratado acadêmico de sociologia conseguiria me transmitir com igual força.

E como falar das ruas de Vitória do Mearim sem curvar a cabeça para reverenciar aqueles que lhes davam cor, graça e alma? Refiro-me, com muito carinho, às nossas figuras lendárias, aos personagens folclóricos que são os verdadeiros cronistas não diplomados do nosso cotidiano. Lembro-me do Penteado, do Bidicão e do Manecão. Nomes que dispensam qualquer sobrenome formal. Eram homens simples, mas que traziam em si a essência da nossa cultura oral, os causos maravilhosos, as tiradas geniais e a presença constante que dava vida e identidade à nossa cidade. Evocá-los hoje, é, para mim, um ato de estrita justiça poética. É declarar em alto e bom som que a alta literatura também se constrói com as narrativas, as lendas e as memórias daqueles que caminham, muitas vezes de pés descalços, pelas nossas calçadas.

Se as ruas me ensinaram a resiliência do comércio e a dignidade do suor, foi dentro do meu próprio lar que absorvi a mais profunda e definitiva de todas as lições. Minhas senhoras e meus senhores, permitam-me despir-me por um instante do rigor formal para falar do amor mais sagrado que existe. Nasci em uma família numerosa. Minha mãe teve sete filhos. E, como uma verdadeira fortaleza esculpida na mais resistente das madeiras maranhenses, ela nos criou sozinha. Hoje, que todos os meus irmãos trilham caminhos de honra e decência, o meu coração se ajoelha em reverência a ela. Minha mãe abdicou de tudo nesta vida. Esqueceu-se de si mesma, de seus próprios anseios, para viver inteiramente em função de cuidar de nós. A sua existência foi um longo e silencioso poema de renúncia. E aqui reside o maior dos paradoxos que o mundo me apresentou: essa mulher formidável, que não teve a oportunidade de frequentar os bancos escolares e que sabia escrever apenas o seu próprio nome, foi, de longe, a intelectual mais brilhante, a filósofa mais profunda e a mulher mais sábia que eu já conheci. A sua sabedoria não derivava das enciclopédias, mas de uma intuição divina, de uma força ancestral e de um caráter inabalável que nos guiou na escuridão.

Foi também embalado por esse clima interiorano, de uma cidade pequena mas de sentimentos gigantes, que o meu coração conheceu o amor. Foi nas ruas e nos encontros proporcionados por Vitória do Mearim que conheci a minha esposa, a minha grande paixão de adolescência (especificamente, na velha igrejinha Assembleia de Deus da Rua Calixta Maciel). Viver um amor de juventude no interior é experimentar uma poesia pura, onde o tempo parece passar mais devagar. Os desígnios da vida e o imperativo dos estudos exigiram que eu mudasse para São Luís em 1999. Contudo, o destino, que é o maior de todos os roteiristas, já havia traçado as nossas linhas de forma indelével. Tempos depois, nos reencontramos nas avenidas da capital. Aquele afeto nascido às margens do Mearim resistira à distância. Nos casamos, formamos a nossa família, e tê-la ao meu lado hoje, compartilhando a vida, é a prova cabal de que as melhores, mais duradouras e mais belas coisas da minha vida têm a sua semente plantada em Vitória do Mearim.

E como esquecer as ricas paisagens que emolduraram essa minha juventude? Ao fechar os olhos, a topografia afetiva da minha infância se descortina com a nitidez de uma pintura. Recordo-me, com uma saudade que inunda o peito, dos imensos campos de juncos da Cotia e do Jaguary, balançando em harmonia com a brisa nordeste. O Igarapé do Jaguary, com suas águas vivas, era o nosso refúgio sagrado. E que dizer das nossas inesquecíveis pescarias de jejus e carambanjas? A cada rede lançada, a cada linha puxada, não havia apenas a busca pelo alimento, mas a alegria eufórica, a algazarra da meninada e a comunhão absoluta com a generosidade do nosso ecossistema. A paisagem vitoriense não estaria completa sem o som inconfundível do vento roçando as palhas dos nossos majestosos cocos babaçus. Aqueles palmeirais eram as sentinelas silenciosas das nossas brincadeiras, o símbolo máximo da riqueza natural e da resistência da nossa Baixada Maranhense.

Nessa sinfonia vibrante da natureza local, misturava-se a minha própria e arrebatadora descoberta da música. Trago gravada de forma indestrutível na memória a Igrejinha Assembleia de Deus, singela e sagrada, situada ali na Rua Calixta Maciel. Foi naquele ambiente de fé, de louvor e de comunidade que a arte musical despertou em mim. Sentado naqueles bancos, com o coração acelerado e a mente focada, aprendi a tirar os meus primeiros acordes de guitarra, muito antes de pegar a estrada para São Luís. A música abriu-me portas no mundo, serenou o meu espírito e, acima de tudo, concedeu-me irmãos que a vida se encarregou de eternizar.

E por falar em irmãos que a música me deu, é impossível não recordar do meu inestimável amigo e irmão Mauro Sérgio. Um talento indescritível, um filho da nossa região que se agigantou para o mundo, consagrando-se como um dos maiores baixistas do Brasil. A trágica pandemia de Covid, que ceifou tantos sonhos e cobriu o nosso tempo de luto, levou o Mauro de forma abrupta e dolorosa. A sua partida calou fisicamente o seu contrabaixo, mas a sua amizade genuína, o seu sorriso largo e o seu irretocável legado artístico ecoarão perpetuamente em minhas lembranças. Tenho a mais profunda convicção de que, um dia nos veremos novamente.

Por carregar Vitória do Mearim de forma tão visceral na minha alma; por sentir que o meu sangue pulsa e flui no exato ritmo das águas do nosso rio, decidi, um dia, transformar essa geografia sentimental em palavras. Pedi licença à poesia para tentar eternizar as cenas, as cores e as emoções que acabo de descrever. E é neste momento solene, acolhido pelo afeto de Vossas Excelências e da minha comunidade, que peço a honra de declamar a poesia que escrevi para a nossa cidade. Um poema que é, na sua essência, o mapa do meu próprio coração:


Sobe naquela árvore

Olha distante

Vê se avista aquela terra

Molhada de lembranças

Das mangueiras do Felisberto

E diz ao meu coração

Que tu vês as cenas

E cada foto

Das mangas

E sais

E tempero seco

Torrado

Socado

Debaixo dos Tamarindeiros

Pitombeiras e azeitoneiras

Depois

Olha para o lado

Vê se avista também

As águas do mearim

Descendo rio abaixo

E diz ao meu coracao

Se ainda estampa cada nado

Cada banho

E remada

Nas canoas

De Domingos e festas

Nas ondas dos garités

Sobe alto

Olha distante

Cada figura

Abraça os amigos da minha juventude

Fotografa cada esquina

Os bloquetes por mim pisados

Amassados

Passados

Pedalados

E sorridos

Vê se olha, também

Cada Beijo cuspido

Nos amores que deixei

Nas esquinas

No beco do padre

No canto escuro

Na rampa

E nos bancos da matriz

Sussurra alto

Um dobrado chorado

Para se fazer ouvir

As quadrilhas

Os festejos

O cheiro dos lindos setembros

No coreto de Nazaré

Agora desce

Antes, dá adeus à pororoca

Aos camapuns nas capoeiras

Às coivaras

Às pipas de cerois

Perdidas nas lanceadas

Das tardes quentes

Aos urubus, por que não?

Às graúnas nos juncos da Cotia

Gralhando ao meio dia

Não esquece de acenar

À multidão

No desfile

Fotografar a baliza

Puxar a barba da velha

E acompanhar a procissão

Não se esqueça de dizer

A essa cidade

A minha cidade maravilhosa

Do meu amor

Da minha paixão

Do orgulho

De ser nascido nesse chão

De ter vivido o amor

Em cada canto desse torrão.

Senhor Presidente, caríssimos acadêmicos e confreiras.

Essa mesma terra maravilhosa que inspira o lirismo apaixonado desses versos, esse mesmo torrão que embalou a minha infância descalça, é, também, o palco grandioso e ancestral de uma das páginas mais heroicas da história colonial do Brasil. A imensa honra de ingressar nesta Casa ganha contornos de quase assombro diante da responsabilidade cívica de ocupar a cadeira que tem como patrono uma figura de dimensões colossais: o grande revolucionário Manuel Beckman, o nosso inesquecível Bequimão.

A história fundacional de Vitória do Mearim e a épica trajetória de vida de Manuel Beckman estão intima, fisica e tragicamente entrelaçadas pelas águas e pelas matas do nosso município. Muito antes da fundação oficial de nossa paróquia e do delineamento da nossa sede municipal, o Vale do Mearim já era o palco principal do trabalho árduo, das angústias e do sacrifício derradeiro do meu patrono.

Manuel Beckman nasceu em Lisboa, na distante Europa, no ano de 1630. Trazendo no peito uma visão de mundo larga, audaciosa e pioneira, ele cruzou o oceano, radicou-se no Brasil e escolheu, dentre todas as infinitas extensões de terras possíveis neste país continental, exatamente a nossa região do Rio Mearim para plantar a sua vida e construir o seu legado.

Neste ponto, a história do herói nativista funde-se irrevogavelmente com a geografia da nossa terra natal. Foi aqui que Beckman estabeleceu a sua imponente Fazenda Vera Cruz. Este local, cujas terras férteis outrora abrigaram o seu engenho de açúcar, encontrava-se situado nas proximidades da nossa atual Vitória do Mearim, em uma região, segundo valiosos relatos colhidos por historiadores ainda no século XIX. A ligação de Beckman com o Mearim, portanto, não era a de um administrador distante, alheio aos sofrimentos do povo; ele vivia fisicamente esta terra, sofria com o seu clima e dela extraía o sustento de muitos.

Para compreendermos a magnitude da revolta que o imortalizou para a posteridade, precisamos mergulhar no desespero que tomou conta da capitania. No final do século XVII, o Maranhão vivia um período de profunda penúria, abandono institucional e estagnação econômica. A partir de 1681, como se o abandono humano não bastasse, uma seca implacável e terrível começou a castigar o Nordeste, e o nosso Maranhão sentiu severamente o duro golpe do clima. O engenho de Beckman, aqui no Mearim, foi duramente atingido.

Sem as chuvas essenciais para a lavoura canavieira, o engenho paralisou. No entanto, demonstrando a inesgotável capacidade de reinvenção que o caracterizava, Beckman não se deixou abater. Ele olhou para a nossa geografia, aproveitou inteligentemente as vastas margens do caudaloso Rio Mearim, e lá concentrou seus currais e pastagens. Passou, então, a fabricar queijos como um meio heroico de sustentar a economia da sua fazenda durante a crise devastadora.

Foi exatamente sobre esse cenário de seca e fome que a Coroa portuguesa, no ano de 1682, desferiu o golpe fatal contra a economia local: a criação da Companhia Geral de Comércio do Maranhão. O famigerado monopólio, ou estanco. A promessa oficial era a de trazer suprimentos vitais da Europa, mas a realidade foi um cruel pesadelo colonial. A Companhia vendia produtos adulterados a preços extorsivos e comprava o suor e a produção dos nossos fazendeiros por valores irrisórios, estrangulando por completo a sobrevivência da região. O povo maranhense se viu encurralado entre a miséria e a tirania.

E é aqui, Senhoras e senhores, que a nossa Vitória do Mearim entra definitivamente, com letras de ouro e sangue, para os anais da Revolta. Foi na Fazenda Vera Cruz, em nosso próprio solo, margeado pelas águas que tão bem conhecemos, que as primeiras e mais importantes articulações do movimento revolucionário aconteceram.

A revolta não nasceu nos gabinetes palacianos da capital; ela germinou aqui. Beckman presidiu, no silêncio estratégico do seu engenho no Mearim, reuniões secretas com outros líderes indignados. E em um golpe de sagacidade admirável, para despistar a rígida vigilância e os espiões do governo colonial, os planos de insubordinação e as convocações para o motim eram escritos em pequenos bilhetes de papel, cuidadosamente ocultos no interior dos grandes queijos fabricados ali mesmo, na fazenda, sendo despachados de forma clandestina pelo rio até chegarem à cidade de São Luís.

Graças a essa formidável articulação forjada na nossa terra ribeirinha, na noite de 24 de fevereiro de 1684, incitados pela indignação e inflamados pelos sermões de denúncia, os revoltosos tomaram São Luís. Depuseram as autoridades corruptas, aboliram o estanco da Companhia de Comércio e instauraram uma Junta Geral de Governo. O levante de Beckman antecipava o grito de liberdade da América Portuguesa.

Contudo, a máquina bélica e implacável do império português logo contra-atacou. Em 1685, Gomes Freire de Andrade desembarcou com pesadas tropas para esmagar o levante e restaurar a ordem opressora. Com a capital retomada e sua cabeça posta a prêmio, Manuel Beckman precisou fugir às pressas.

E para onde o grande e destemido líder correu em busca de refúgio? Para onde ele olhou quando a morte lhe rondava? Ele retornou para o coração da sua história. Veio se refugiar nas densas matas do Mearim, buscando o asilo seguro de seu próprio Engenho. O nosso solo, que havia sido o berço do seu sonho de liberdade, tornava-se agora o seu último santuário.

O desfecho, porém, foi manchado pela mais repulsiva das covardias humanas. Beckman não foi vencido em um combate honrado. Ele foi tragicamente delatado e caçado dentro das terras do Mearim por Lázaro de Melo, um homem que era seu próprio afilhado, a quem Bequimão havia criado, protegido e elevado na vida. Movido pela ambição desmedida e pela promessa de recompensa real, o traidor guiou as tropas até o esconderijo do padrinho. Dali, capturado em nossa região, o herói fez a longa, humilhante e dolorosa viagem de volta a São Luís, agora carregado de pesadas correntes de ferro, caminhando com a altivez dos grandes mártires rumo ao cadafalso.

Julgado de forma sumária e manipulada, foi condenado à forca. Uma morte projetada pelo poder absolutista para ser vil, aviltante, estigmatizante, desenhada para apagar a sua honra e amaldiçoar para sempre a sua descendência. A execução foi consumada em 10 de novembro de 1685.

Mas a tirania cometeu o seu erro histórico mais grosseiro. Ao pendurar Manuel Beckman pelo pescoço, não o silenciaram; forjaram o nosso mito fundador. Beckman subiu os degraus do patíbulo transformando-o num altar sagrado de patriotismo. Suas últimas palavras, declarando que pelo povo do Maranhão morreria contente, ainda hoje ecoam poderosas e invencíveis pelas mesmas margens do nosso Rio Mearim que abrigaram os seus sonhos.

Hoje, a forca desapareceu nas brumas do tempo, mas a glória do seu sacrifício é imortal. Bequimão é reverenciado como o protomártir da nossa Independência, dando nome ao Palácio sede do Poder Legislativo do Estado.

Senhoras e senhores,

Ao assumir esta cadeira, eu não recebo apenas um título literário ou uma honraria passageira. Eu recebo o dever sagrado de abraçar a bravura de Manuel Beckman. A resistência que ele demonstrou no século XVII — articula.








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